Denso e bem paulistano, o álbum chega em LP vermelho marmorizado pela Universal Music Brasil
Por Guilherme Samora*
No final de 1988, “Zona Zen”, de Rita Lee & Roberto de Carvalho, teve a missão de ser o sucessor do arrasa-quarteirão “Flerte Fatal”, o colorido disco que arrombou as paradas de sucesso e teve uma enorme turnê dedicada a ele. A capa — com fotos em preto e branco — já dava sinais de que os dois trabalhos não seriam parecidos. O disco, denso, é a cara de São Paulo: da foto da capa, cheia de grafites em um muro da Rua Purpurina, na Vila Madalena, ao som mais urbano e majoritariamente pesado. O grafite é de Mauricio Villaça, que reuniu uma turma da pesada para auxiliá-lo na empreitada. Nas músicas, Rita apresenta a maneira como enxergava a si mesma e o mundo à sua volta, na maior parte das vezes com um olhar bastante afiado e sem festa. Hoje, a Universal Music Brasil relança o álbum em vinil vermelho marmorizado, com artes e encartes originais. Saiba mais aqui: https://www.umusicstore.com/rita-lee .
“Nunca Fui Santa”, música e letra de Rita, vem numa mistura de autodeboche com autoterapia. “Sou nova demais pra velhos comícios / Sou velha demais pra novos vícios”. “Independência e Vida” — outra só de Rita — aparece a seguir, com um olhar um tanto desgostoso para o mundo, mas apontando a saída naquilo que ela sempre prezou: a liberdade. “Dia desses meu chapa/ Sumo do mapa/ Vou pra zaca do lhoraca/ Viver sei lá de quê/ Talvez de brisa”. O palavrão camuflado é um toque especial de quem havia enfrentado a censura durante anos.
O disco é um belo registro da voz de Rita, linda e cristalina. A produção de Roberto é impecável, bela e na medida certa para cada canção. No álbum, ele toca guitarra, violão, teclados e piano, além de fazer a programação da bateria eletrônica. Rita, além da voz e dos vocais, toca autoharp, castanholas e kalimba.
“Livre Outra Vez” é o grande sucesso, com clipe gravado no centrão de São Paulo: na Estação da Luz, nos trens, na escadaria e no topo do Copan… A letra e a voz de Rita tocam profundamente em uma canção que é uma das mais doloridas de toda a sua carreira. Uma curiosidade: a música, de Roberto, foi a primeira versão de “Vírus do Amor” (do disco de 1985, aquele que também tem a capa em preto e branco). Com a mudança de planos, Rita acabou colocando essa nova letra na canção.
Belíssima, a faixa-título é etérea, misteriosa e melancólica, marcada pelas castanholas de Rita e pelos teclados de Roberto. Ao se deparar com a zona do momento presente, Rita, genial, resume: “Saudade do futuro, eu juro”. Uau!
“Cruela Cruel” é uma porrada. “Sou um ninho no estranho / Mundo perigoso, insano / Nexo, yogas e roquebrou / Nunca a vida se mostrou assim tão cruela cruel”, dispara Rita em uma canção completamente desiludida. Curiosamente, as músicas mais pra cima do disco são uma regravação de Wanderléa — a impagável “Sem Endereço” (versão de Rossini Pinto para “Memphis Tennessee”, de Chuck Berry), que ficou perfeita na interpretação de Rita & Roberto — e “Cecy Bom”. A versão de Rita para “C’est si bon”, de Henri Betti e André Hornez, é uma delícia. No disco, é a preferida de Rita, que descreve a canção como “uma homenagem a Brigitte Bardot quando veio ao Brasil”. Outra curiosidade: vinte e um anos depois, em 2009, ela foi escolhida para a trilha sonora da novela “Caras & Bocas”, da TV Globo.
“Mana Mané” fecha o disco. Música e letra de Rita, fala sobre o verão da lata, quando toneladas de cannabis apareceram flutuando no mar brasileiro, no fim de 1987. O clima mais denso fez com que Zona Zen tivesse vendas inferiores às de “Flerte Fatal”. Ainda assim, o álbum foi certificado com Disco de Ouro. Com o relançamento, é uma boa hora para revisitar esse trabalho, uma joia um tanto incompreendida da dupla Rita & Roberto.
*Guilherme Samora é jornalista e estudioso do legado cultural de Rita Lee.