Álbum clássico de Cassiano é relançado em vinil pela Universal Music Brasil no projeto “Safra 76”
“Relançar ‘Cuban Soul: 18 Kilates’ em vinil é uma decisão estratégica que reconhece a relevância duradoura da obra de Cassiano e seu impacto na consolidação do soul brasileiro. Com o projeto ‘Safra 76’, reposicionamos um marco da nossa história musical no centro do consumo contemporâneo. Ao restaurarmos o álbum ao seu formato original, preservamos sua integridade artística, ampliamos sua experiência sonora e reforçamos seu valor para audiências atuais e futuras. Viva Cassiano, uma referência que recomendo sempre para todos os novos artistas” – Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil. Saiba mais AQUI.
Lançado em 1976, “Cuban Soul: 18 Kilates” é uma afirmação evidente do talento único do paraibano Genival Cassiano dos Santos — ou simplesmente Cassiano, como ficou marcado na história da música brasileira. Visto por uma lente mais larga, o disco é também um documento de época e síntese estética de um momento em que o soul e o funk, atravessados por procedimentos harmônicos da MPB, encontraram no Brasil uma gramática própria. Agora, o álbum volta ao formato original em vinil, relançado pela Universal Music Brasil como parte do projeto “Safra 76”, que até o fim de 2026 revisita discos lançados naquele ano e que completam agora cinco décadas.
Terceiro álbum de estúdio de Cassiano, “Cuban Soul: 18 kilates” consolida uma linguagem que vinha sendo construída desde os trabalhos anteriores, mas que aqui ganha nitidez e impacto popular. Não se trata apenas de um disco “influenciado” pela soul music norte-americana, mas de um trabalho que reorganiza suas referências a partir de uma sensibilidade brasileira — no canto, na harmonia, no balanço e na forma de dizer o amor.
Inserido no contexto do movimento que a imprensa viria a batizar de Black Rio, o disco dialoga com o circuito dos bailes, das equipes de som, das trilhas de novela e da indústria fonográfica dos anos 1970. Nesse ecossistema, duas canções se tornaram fundamentais para o sucesso do álbum. A primeira delas é “Coleção”, construída brilhantemente sobre um discurso amoroso inseguro e hesitante — “Não vá… ou vá”, “Sei também que você… eu não sei mais nada” — que desemboca numa afirmação inequívoca: “Quer saber? Eu amo você”. A outra é “A Lua e Eu”, com sua melodia linda, os versos que se deitam sobre ela com naturalidade, num canto que traz a emoção e os efeitos exatos, sem nenhuma sobra.
Ambas atravessaram o nicho da black music e se fixaram no repertório popular, impulsionadas respectivamente pelas novelas “Locomotivas” e “O Grito”. Graças a essas duas canções, o álbum se tornou — mais do que uma referência cult — parte da memória coletiva brasileira.
“Cuban Soul: 18 Kilates”, porém, vai além desses momentos mais conhecidos. Há nele a elegância soul de “Hoje é Natal”, canção de Natal embalada num acolhedor compasso ternário. Em “Ana Luiza”, o chamado pelo nome no primeiro verso já dá o tom do drama de amor da canção, na qual a ingenuidade dos versos conversa com o calor da melodia. “Saia dessa fossa” injeta energia no disco com a intenção clara exposta no título e influências de Sly & The Family Stone.
Já “De bar em bar” bebe da disco music, enquanto “Salve essa flor” investe num lirismo romântico apoiado em imagens simples — a flor, o vento, o sol, as ervas daninhas. “Central do Brasil” é um funk irresistível com letra que é menos sentido narrativo que efeito sonoro: em meio ao balanço e às frases de metais, apenas se repete a palavra “Central”.
No centro do álbum está “Onda”, faixa longa e minimalista, sustentada por um groove persistente, poucos acordes e imagens poéticas ligadas à perda e à instabilidade do desejo da amada. Décadas depois, a música ganhou nova circulação ao ser sampleada por artistas como Racionais MC’s, que em 2002 a usaram em “Da ponte pra cá”, evidenciando a permanência do repertório de Cassiano na cultura musical brasileira.
Ao longo dos anos, “Cuban Soul: 18 Kilates” consolidou-se como obra de referência do soul brasileiro e como ponto de inflexão na trajetória de Cassiano. A crítica costuma ler o álbum como fechamento de uma trilogia essencial e, ao mesmo tempo, como marco de um artista cuja relação com a indústria foi atravessada por tensões, apagamentos e interrupções. Ainda assim, o disco nunca deixou de circular — seja em reedições, no streaming ou na memória afetiva de diferentes gerações de ouvintes, músicos e DJs.
O relançamento em vinil pelo projeto “Safra 76” reafirma a importância histórica e musical de “Cuban Soul: 18 Kilates”, recolocando em circulação um disco fundamental para compreender a consolidação da soul music brasileira e o papel de Cassiano como um de seus principais arquitetos.
Leonardo Lichote
março de 2026
Repertório do álbum “Cuban soul: 18 kilates”:
Lado A:
1. Hoje é Natal (Cassiano / Paulo Zdanowski)
2. Coleção (Cassiano / Paulo Zdanowski)
3. Ana Luiza (Antonio Carlos Jobim) – feat. Sergio Endrigo
4. Onda (Cassiano / Paulo Zdanowski)
Lado B:
1. Central do Brasil (Cassiano / Paulo Zdanowski)
2. Saia Dessa Fossa (Cassiano / Paulo Zdanowski)
3. De Bar em Bar (Cassiano / Paulo Zdanowski)
4. Salve Essa Flor (Cassiano / Paulo Zdanowski)
5. A Lua e Eu (Cassiano / Paulo Zdanowski)