Em março de 1987, Cazuza já parecia antever o turbilhão emocional que viveria. Ao lançar seu competente segundo álbum solo, “Só Se For a Dois”, já aparecia com reflexões mais profundas, para além dos seus excessos de sexo, drogas & rock’n’roll no baixo Leblon, sem, no entanto, abandonar o sarcasmo e a provocação – marcas autorais que levaria até o fim dos seus dias, três anos depois, até nos deixar, aos 32 anos, em 7 de julho de 1990.
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Na primeira faixa, que dá título ao disco, produzido por Jorge “Gordo” Guimarães e seu fiel escudeiro Ezequiel Neves, ele extrapola as fronteiras do país e fala das idiossincrasias em diversas culturas, religiões e romances dos casais mais diversos, colocando-se contra o racismo e, talvez, ao mesmo tempo, exibindo metaforicamente seu conceito de contaminação: “Qual é a cor do amor?/ O meu sangue é negro, branco, amarelo e vermelho.” Nesse último verso, e em outras canções do disco, ele parecia já se deparar com a finitude da vida, não estando disposto a desprezar nenhum pequeno prazer em troca de promessas metafísicas, como na faixa “Ritual”, de versos como “Pra que chorar/ A vida é bela e cruel, despida/ Tão desprevenida e exata/ Que um dia acaba.” Uma sensação bisada no sucesso “Solidão, Que Nada” (“Viver é bom/ Partida e chegada/ Solidão que nada”).
Outro hit desse álbum foi a debochada “Vai à Luta” sobre uma pessoa que, do nada, vira celebridade no meio artístico e se deslumbra. Ao final, cita inclusive uma frase de Millôr Fernandes: “Porque os fãs de hoje são os linchadores de amanhã”. Mas o maior hit desse álbum foi mesmo a canção de amor sarcástica, bem a seu modo, “O Nosso Amor a Gente Inventa”, dele com o tecladista João Rebouças e o guitarrista Rogério Meanda – a propósito, foi esse último que lhe contou uma desilusão amorosa, inspirando-o a compor a música. Também incluída na trilha da novela das oito da TV Globo, “O Outro”, foi uma das mais tocadas do ano de 1987: “O teu amor é uma mentira/ Que a minha vaidade quer/ E o meu poesias de cego/ Você não pode ver (…) O nosso amor a gente inventa/ Pra se distrair/ E quando acaba a gente pensa/ Que ele nunca existiu”.
Rodrigo Faour
abril de 2026
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“‘Só Se For a Dois’ captura um período particularmente intenso e criativo de Cazuza, já no fim dos anos 1980, quando ele consolidava uma escrita ainda mais direta, confessional e provocadora. O álbum reúne canções que atravessaram o tempo e se tornaram fundamentais para a música brasileira. Relançá-lo em vinil não é apenas revisitar essa obra em seu formato original, mas também criar uma nova ponte com outras gerações, reafirmando a força, a atualidade e a relevância artística de Cazuza”, diz Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil.
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Repertório do álbum “Só Se For a Dois”:
Lado A
1. Só se for a dois (Rogério Meanda / Cazuza)
2. Ritual (Frejat / Cazuza)
3. O Nosso Amor a Gente Inventa (João Rebouças / Rogério Meanda / Cazuza)
4. Culpa de Estimação (Frejat/Cazuza)
5. Solidão, Que Nada (George Israel/Nilo Romero/Cazuza)
Lado B
1 Completamente Blue (George Israel / Rogério Meanda / Nilo Romero/Cazuza)
2. Vai à Luta (Rogério Meanda / Cazuza)
3. Quarta-feira (Zé Luiz Mazziotti / Cazuza)
4. Heavy Love (Frejat / Cazuza)
5. O Lobo Mau da Ucrânia (Rogério Meanda / Ezequiel Neves / Nilo Romero / João Rebouças/Fernando Moraes/Cazuza)
6. Balada do Esplanada (Cazuza, baseado em poema de Oswald de Andrade)