Desde que deixou o Secos & Molhados, em 1974, portanto há 30 anos, que Ney Matogrosso não gravava um disco inteiro em parceria. E isso se deu com a banda carioca Pedro Luís e a Parede. O cantor fascinou-se pelo peso da percussão em harmonia com o baixo nos arranjos do grupo. Já Pedro animou-se com a empreitada não apenas por dividir um álbum com um intérprete de sua qualidade inquestionável, mas por seu olhar atento, sempre em busca do novo. Produzido pelo então empresário de Ney, João Mário Linhares, e pelo guitarrista Carlos Martau, este CD “Vagabundo”, que pela primeira vez a Universal Music Brasil edita em formato de vinil duplo – um branco, outro laranja –, as duas partes opinaram no repertório.
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“‘Disritmia’, do Martinho da Vila, foi indicação minha”, explicou Ney à época. “Já ‘Assim, assado’ foram eles que pediram porque queriam uma do Secos & Molhados. ‘A ordem é samba’ entrou porque tanto eu quando eles queríamos uma música do repertório do Jackson do Pandeiro e concordamos com esta. ‘Napoleão’ eu já tinha cantado lá atrás, mas senti que com eles poderia render muito mais do que minha gravação. ‘Jesus’ já estava na minha mão há algum tempo, mas não tive peito de cantar sozinho porque alguém podia achar que eu estava falando mal dele, o que eu jamais faria, e neste contexto de banda fazia mais sentido cantá-la. E teve as duas que acho que são os pontos altos do repertório: ‘Transpiração’ e ‘Interesse’”. Em tempo: “Transpiração” indagava sobre de onde vinha a famosa inspiração dos artistas e “Interesse” um tremendo deboche sobre a perda amorosa, com muito vigor pop. “Acende uma vela pra Deus, outra pro diabo/ Agradeço, você não se interessa mais por mim.”
A maioria das músicas já tinha sido gravada anteriormente, porém apenas por intérpretes fora da grande mídia, e por isso mesmo soavam como inéditas. Fato que é Ney, Pedro, a Parede e mais a banda de base de Ney se uniram num trabalho cheio de vigor que gerou quatro produtos. Além deste álbum de estúdio, um DVD com os bastidores de todo o processo criativo do trabalho, outro de um show ao vivo, também lançado em CD.
O crítico Hugo Sukman, quando estreou o show com as canções desse álbum, definiu que este encontro oxigenava ambas as partes, que Pedro Luís e a Parede eram tradutores dos ritmos e das falas das ruas do Brasil de hoje e que, portanto, eram “naturalmente marginais (embora sem pose)” e entravam para o mainstream “graças aos olhos de farol de Ney”. “Se chama ‘Vagabundo’ não no sentido pejorativo da indolência, mas no sentido moleque, carioca e carinhoso do sujeito que encontra outro na rua e exclama: Aê, vagabundo!”, atestou. Era isso mesmo.
Rodrigo Faour
outubro de 2026
Repertório de “Vagabundo” (Ney Matogrosso & Pedro Luís e a Parede):
DISCO 1:
LADO A
1 – A ordem é samba (Jackson do Pandeiro/Severino Ramos)
2 – Seres Tupy (Pedro Luís)
3 – Transpiração (Alzira Espíndola/Itamar Assumpção)
4 – Interesse (Suely Mesquita/Pedro Luís)
LADO B
1 – Assim assado (João Ricardo)
2 – Noite Severina (Lula Queiroga/Pedro Luís)
3 – Vagabundo (Antônio Saraiva)
4 – Inspiração (Gilberto Mendonça Teles/Pedro Luís)
DISCO 2:
LADO A
1 – Disritmia (Martinho da Vila)
2 – Napoleão (Luhli/Lucina)
3 – Tempo afora (Fred Martins/Marcelo Diniz)
LADO B
1 – Jesus (Gustavo Valente/Lucas de Oliveira/Dado/André Pessoa/Rodrigo Cabelo/Beto Valente/ Pedro Luís)
2 – Finalmente (Alzira Espíndola/Paulo Salles/Itamar Assumpção)
3 – O mundo (André Abujamra)