É preciso dar um jeito, mano

“Eu não quero mais conversa/ Com quem não tem amor”. Os versos, cantados por Erasmo Carlos em “Gente aberta”, atravessam mais de meio século como se tivessem acabado de ser escritos. Estar aberto ao amor, para Erasmo, era uma posição diante do mundo — transgressora em sua radicalidade. Em “Mano” (Universal Music Brasil), essa postura é reafirmada em beats e rimas. No álbum, canções gravadas por ele na primeira metade da década de 1970 são relidas por artistas do rap, que entram nos fonogramas para uma conversa com Erasmo e sua voz, que segue viva.

O disco, que chega às plataformas de streaming no dia 22 de maio como parte das homenagens ao Tremendão – que no dia 5 de junho faria 85 anos –, propõe uma escuta de uma fase específica de sua obra. No início da década de 1970, Erasmo já havia deixado para trás a moldura juvenil da Jovem Guarda e passava a cantar inquietações adultas, desordem social, amor e liberdade. Era também um momento de transformação pessoal. Como observa Léo Esteves, filho e empresário do cantor, o recorte do projeto acompanha o período em que ele “casou, se tornou pai, veio de São Paulo para o Rio, teve contato com as drogas, que expandiram sua percepção sobre o que estava vivendo” — e em que sua obra passou a retratar esse novo universo.

É o Erasmo de “Carlos, Erasmo” (1971), “Sonhos e memórias — 1941/1972” (1972) e “1990 — Projeto Salva Terra!” (1974), fase que voltou ao centro do furacão destes anos 2020 quando “É preciso dar um jeito, meu amigo” entrou na trilha sonora de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles — vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional. A canção se tornou uma espécie de emblema afetivo e político da obra e ganhou nova força nas plataformas de streaming, onde hoje aparece como a mais ouvida de Erasmo.

A ideia nasceu de uma inquietação antiga de Léo. Ele conta que o projeto começou ainda em conversas com o pai, quando os dois pensavam em caminhos para fazer circular um repertório que o cantor amava, mas que nem sempre encontrava lugar nos shows. A preocupação era impedir que o trabalho soasse como simples movimentação de catálogo. “Do ponto de vista de legado, eu só quero fazer coisas que façam sentido artístico”, afirma o filho de Erasmo.

Ele convocou então Marcus Preto, diretor artístico de alguns dos últimos discos de Erasmo, para assumir o novo projeto. Nas conversas com Léo, Marcus sugeriu o rap como uma forma de atualizar esse repertório sem descaracterizar as canções — uma preocupação colocada desde o início pelo filho de Erasmo.

A gente queria uma coisa mais legal e mais criativa do que simplesmente um disco de remixes”, conta Marcus. “Então pensei: ‘Por que não pegar essas faixas e dar pra galera do rap abrir, pegar os instrumentos e rimar a partir dessas bases?’. É algo da própria linguagem do rap. Era um formato que respondia a essa preocupação do Léo de manter a canção do Erasmo e tinha o elemento novo de pensar como rap, com uma cabeça de dueto, não de remix”.

A voz de Erasmo permanece como núcleo, enquanto Emicida, Dexter, BUDAH, Xamã, Rael, Tasha & Tracie, Marcelo D2, Criolo e Tássia Reis criam novas entradas para as músicas. “Fiquei pensando que daria para eles e elas trazerem o discurso do início dos anos 1970 para este momento”, lembra Marcus, que vê paralelos entre o que Erasmo cantava naqueles discos, em meio à eclosão da contracultura, e os dias de hoje. “A gente está vivendo umas coisas muito parecidas com aquele período. Aquele pensamento do Erasmo que tinha um desejo de quebrar a caretice daquela época faz sentido hoje também, porque agora estamos tentando resistir à caretice que está tentando voltar”.

“É preciso dar um jeito, meu amigo/ A vida irrita a arte”, com Emicida e Tropkillaz, parte justamente da canção que voltou a circular a partir de “Ainda estou aqui”. O riff de guitarra que introduz a gravação original aparece novamente como abre-alas, mas agora com a dedicatória na voz do rapper: “Meu amigo Erasmo, esteja onde estiver, tamo junto: essa é pra você”. Os versos que servem de base para as rimas de Emicida parecem dar conta dessa trajetória iniciada em 1971: “Eu cheguei de muito longe/ A viagem foi tão longa”. Passado e presente aparecem sobrepostos numa mesma travessia, na qual surgem citações a Geraldo Vandré, Mário Quintana, Belchior e John Coltrane.

Em “Mundo cão/ Quem é herói ou vilão?”, Dexter parte de uma letra que também carrega espanto diante da violência do mundo. Em suas rimas sobre as bases de Coyotte Beatzz, ele aprofunda esse espanto — chega a lembrar um antigo refrão de Silvio Brito, igualmente perplexo: “Tá todo mundo louco, oba”. Sua relação com a música do Tremendão é igualmente antiga. “As minhas irmãs ouviam Erasmo quando eu era criança, isso me fez conhecer a obra dele”, conta o rapper, que vê em Erasmo um compositor capaz de atravessar épocas pela forma de se expressar. “É um cara à frente do seu tempo e que se tornou essa figura justamente por isso”.

“Cachaça mecânica/ Queimando tudo dentro”, com BUDAH, toma outro caminho. A música de Erasmo, originalmente um samba, ganha base soul/ rap sob produção de Tibery. Budah canta a letra original e depois desloca a narrativa para dentro de João, personagem que bebe e samba até o limite e acaba morto numa terça-feira de Carnaval. A nova versão tenta escutar o incêndio interno: “Queimando tudo dentro/ Conversando com o vento”.

Em “Sábado morto/ Eu enquanto pássaro”, Xamã toma para si essa que é uma das mais lindas canções amorosas de Erasmo e a puxa para uma paisagem urbana atual. A produção de Pupillo realça as sombras apenas insinuadas na gravação original. O rapper solta rimas como “Sábado morto e uma merda de festa de branco” e — chamando para perto a persona clássica de Erasmo — “Minha fama de mau é tudo marketing”.

“Sorriso dela/ Não tem pra ninguém”, com Rael, preserva a densidade cinematográfica do original e acrescenta um romantismo pop sem ingenuidade. Rael olha para a personagem de Erasmo e a inscreve em outro imaginário, de cabelo crespo, Palestina e “Soul Train” — programa de TV americano surgido no início da década de 1970 voltado para a música negra. A faixa também é produzida por Pupillo — a presença em duas faixas sublinha sua importância como produtor nos últimos álbuns de Erasmo.

“Grilos/ O tempo é amigo e inimigo”, com Tasha & Tracie na voz e produção de Pizzol, talvez seja a faixa em que a conversa entre gerações aparece de modo mais sereno. A letra de Erasmo vem antes da entrada das duas, que atendem ao convite de Erasmo de “cortar os grilos”. “A gente às vezes tem que desacelerar e colocar nossa atenção no presente”, reflete Tracie, que conta que a música toca no que ela mesma aprendeu em seu processo de cura. Tasha completa: “Hoje, aos 30, entendi que as coisas boas e ruins sempre vão acontecer e é importante senti-las, mas também deixar ir e escolher ser leve, porque, como Erasmo disse, o mundo já pesa muitos quilos”.

“Maria Joana/ Pra que as trevas destravem” — ode à maconha que reflete as descobertas de Erasmo naquele período — leva a canção de Erasmo para uma atmosfera jamaicana. Produzida por Nave, a faixa encontra em Marcelo D2 um intérprete natural para o tema. D2 aciona o reggae, brinca com tossidas, cita o verso “é tudo que eu quero pra mim” (“A sombra da maldade”, do Cidade Negra), e aproxima Erasmo de uma linhagem mais irreverente do rap carioca.

O álbum fecha com “Gente aberta/ Imensamente visceral”, encontro de Erasmo com Criolo e Tássia Reis. Criolo começa cantando a melodia original, Erasmo entra em seguida, e a gravação se estabelece como um dueto clássico, antes de Tássia chegar com o rap. Criolo chama a atenção para os produtores ao mencionar o cuidado com a sonoridade da faixa: “A construção em estúdio só foi possível com os incríveis Ed Trombone e Bruno Buarque, que levaram a música pra um lugar de muita criação pautada no respeito à obra original”. Tássia transforma a defesa da “gente aberta” numa ética da vulnerabilidade: “Não preciso do perdão de quem se diz normal/ Estou vivendo pelo plot e o clichê/ Correndo risco de ser imensamente visceral”.

Há ainda uma linha que atravessa — de forma sutil, porém marcante — o disco inteiro. “Mano” aproxima Erasmo de uma juventude negra e periférica que reconhece em sua obra um campo de disputa afetiva e política. A presença do rap, do reggae, dos graves, das referências ao cabelo crespo, à “festa de branco” e ao ‘Soul Train’ enegrece esse repertório sem descaracterizá-lo — apontando talvez para algo que já havia ali nas canções daquele garoto suburbano que sonhava em ser estrela do rock. Ao notar essa percepção, Marcus lembra: “O Erasmo foi um cara fundamental no samba-rock, por músicas como ‘Coqueiro verde’ e ‘Mané João’”. E acrescenta que, quando o gênero experimentou um reaquecimento no início dos anos 2000, “todo mundo chamava o Erasmo pra participar porque reconhecia nele um dos fundadores”.

Léo vê nesse tipo de aproximação uma forma de recolocar Erasmo na prateleira em que sua obra sempre esteve, mesmo que parte do público ainda não tivesse percebido. “Tem uma galera que precisa ser apresentada a isso. Porque senão fica sempre dependendo de quem sabe um dia um cineasta coloca uma música num lugar bacana de um filme pra você ouvir”. Em “Mano”, Erasmo permanece no centro, mas o centro se move. O Gigante Gentil dos anos 1970 encontra no rap uma nova maneira de continuar dizendo: “É preciso dar um jeito, meu amigo”.

Leonardo Lichote
maio de 2026

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Erasmo Carlos é dono de um dos catálogos mais relevantes da música brasileira — uma obra que atravessa décadas, ajudou a moldar o rock nacional ao lado da Jovem Guarda e segue profundamente conectada ao presente. ‘Mano’ materializa essa potência: canções originalmente compostas nos anos 1970 ressurgem com novas camadas a partir do rap, um gênero que hoje ocupa o centro do debate cultural no país. O encontro acontece de forma orgânica, aproximando gerações e unindo artistas que, cada um à sua maneira, traduzem o Brasil contemporâneo. É um projeto que não apenas preserva o legado de Erasmo, mas o expande, reposicionando esse repertório para dialogar com novos públicos e reafirmar sua relevância no cenário atual.” – Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil.
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Repertório álbum “Mano”:

“Gente Aberta: Imensamente Visceral”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Tássia Reis)
com Tássia Reis e Criolo

“Sorriso Dela: Não Tem pra Ninguém”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Rael)
com Rael

“Cachaça Mecânica: Queimando Tudo Dentro”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Budah)
com Budah

“Mundo Cão: Quem É Herói ou Vilão?”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Dexter)
com Dexter

“Sábado Morto: Eu Enquanto Pássaro”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Xamã)
com Xamã

“Grilos: O Tempo É Amigo e Inimigo”
(Roberto Carlos/ Erasmos Carlos/ Tasha & Tracie)
com Tasha & Tracie

“Maria Joana: Pra que as Trevas Destravem”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Ogi)
com Marcelo D2

“É Preciso Dar um Jeito, meu Amigo: A Vida Irrita a Arte”
(Roberto Carlos/ Erasmo Carlos/ Emicida)
com Emicida e Tropkillaz