SERGIO MENDES & BRASIL 66 “Herb Alpert presents Sergio Mendes & Brasil 66”

Fenômeno de vendas e marco histórico do pop global, álbum que estourou mundialmente a música brasileira ressurge em vinil 60 anos depois

Mais que tudo, mais que qualquer coisa, para além do tanto que representou para a música brasileira e para o soft power da cultura do país, este álbum é um marco histórico do pop internacional. Um sucesso imenso que botou, pela primeira vez, o planeta quase inteiro para cantar um big hit todinho em português: “Mas Que Nada”, de Jorge Ben, no arranjo levemente jazzístico e efusivo que encantou e fez dançar gerações diferentes de fãs (ecoando também em gravações posteriores que a samplearam ou citaram).

No verão de 1964, Tom Jobim (1927-1994) escreveu no texto da contracapa de “Você Não Ouviu Nada!”, LP que um jovem niteroiense de 23 anos acabara de gravar, em longas e inspiradíssimas noites de trabalho ao seu lado, com o grupo Bossa Rio e com Moacir Santos (1926-2006): “Sergio Mendes é um tremendo músico. Sua carreira está iniciando, e sei que vai muito longe. Além de ser um intuitivo, é um estudioso, coisa muito rara. Não sou profeta, mas creio que este disco, produto de muito trabalho e amor, vai abrir novos caminhos para a nossa música“.

Dois anos e meio depois, Sergio Mendes (1941-2024) lançava um novo álbum, este “Herb Alpert Presents Sergio Mendes & Brasil ‘66”, com sucesso instantâneo e duradouro — cerca de dois anos nas listas de mais vendidos dos EUA, somando 1 milhão de cópias — que conquistou o planeta quase inteiro, fazendo da música brasileira sinônimo de excelência musical e diversão.

Agora, 60 anos após o lançamento do álbum original, a Universal Music Brasil faz o relançamento do projeto, que já está disponível para pré-venda na UMusic Store. Saiba mais AQUI.

O samba nunca foi tão pop quanto na receita incrível matutada por Sergio, dono de um estilo inicialmente definido com lirismo por seu mais ilustre fã, Tom Jobim: “piano tocado com gosto de menino que descobriu pé de jabuticaba”. Com formação clássica, ele tomou gosto pelo jazz antes de descobrir (e ser descoberto) pela bossa nova. No Beco das Garrafas, em Copacabana, conheceu e fez-se conhecido pela nata dos músicos locais e também por bacanas do jazz americano que ali turistavam, atraídos por aquela batida diferente, como o flautista americano Herbie Mann (1930-2003).

Precoce, em novembro de 1962, aos 21, anos, subia ao palco no mítico concerto no Carnegie Hall, no desembarque bossanovista em Manhattan. Meses antes, tinha gravado com o saxofonista Cannonball Adderley (1928-1975), em seu disco brasileiro “Cannonball’s Bossa Nova”.

Estabelecido nos EUA desde 1964, Sergio já era darling da indústria fonográfica quando montou o Brasil ‘66. Prestigiado pelos poderosos irmão Ahmed (1923-2006) e Nesuhi Ehtegun (1917-1989), da Atlantic, lançara quatro discos de jazz em dois anos — um deles, “The Arrival”, de 1965, o saudava na embalagem como “a melhor coisa a chegar da América do Sul depois do café”.

Quando o trompetista Herb Alpert, então estourado como band leader da Tijuana Brass (vendendo mais que os Beatles!), o chamou para gravar por seu selo A & M, já veio com planos, ambições maiores de vendagem e exposição. O Brasil ‘66 abriria seus concorridos shows, tocando em arenas para até 20 mil pessoas e em locais de prestígio como o Carnegie Hall. O apelo não seria apenas jazzístico, mas pop, com alto nível musical, mas sempre oferecendo melodias cantaroláveis — ainda que naquele idioma estranho, o português.

Na contracapa do LP, os nomes das músicas vinham com uma “cola” fonética para facilitar: “Ma-sh Kay Nada” (que Sergio viu estrear com o autor Jorge Ben no tempo de Beco das Garrafas), “Agwa Gee Beberr” (a “Água de Beber” de Tom e Vinicius, “O Pawtoo” (aquela que João Gilberto transformou em standard da bossa) e “Ber-im-Bough” (“Berimbau”, o afro-samba de Vinicius e Baden).

O novo grupo de Sergio trazia em sua formação duas cantoras de impacto visual. Uma delas, trunfo inestimável, a americana Lani Hall, tinha sido recém-descoberta pelo próprio Sergio quando, aos 19 anos, ainda engatinhava no circuito folk de cafés de Chicago. A outra era, inicialmente, a modelo brasileira Bibi Vogel (1942-2002), lindíssima. Ela consta na capa, mas saiu antes do término das gravações; quem posa com o grupo na contracapa é a americana Janis Hansen (1942-2017), que viria a brilhar em discos posteriores.

Na cozinha, ao lado do americano Bob Mathews ao baixo, e da percussão de José Soares, havia, muito bem gravado, o pulo do gato rítmico: a bateria do carioca João Palma (1943-2016), que gravaria depois com Frank Sinatra e Tom Jobim, fazendo a diferença nas obras do brasileiro da primeira metade dos anos 1970.

Já experiente nas transcrições das canções dos Beatles para o latin jazz, Sergio Mendes sacou uma versão hot infalível de “Day Tripper”, com direito a palminhas para o povo dançar, à moda dos hits de Chris Montez. Ele sempre negou usar fórmulas, gostava de dizer que era guiado pelo amor às melodias. Não por acaso, longe da extroversão da metade brasileira do repertório, destaca-se “Slow Hot Wind”, com arranjo que valoriza a delicadeza do autor, Henry Mancini (1924-1994).

Bem sacadíssimo também é o upgrade em “Going Out of My Head”, sucesso do grupo de doo wop Anthony & The Imperials. E não falta uma pérola pouco óbvia de charme 100% brasuca, “Tim Dom Dom”, com a batida inventada por Clodoaldo Brito (1913-1984), o Codó da Bahia — gravada antes por João Donato (1962) e por Jorge Ben no fundamental “Samba Esquema Novo” (1963). Mesmo com o sotaque de Lani Hall, passa uma graça e um tutano absolutamente brasileiros.

Depois dessa explosão inicial, Sergio Mendes construiu uma carreira internacional longa e vitoriosa, conquistando a admiração de caras como Stevie Wonder e Paul McCartney, quase tão geniais quanto aquele seu derramado fã lá do comecinho, Tom Jobim.
Pedro Só
Julho de 2026

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Poucos artistas tiveram um impacto tão profundo na projeção internacional da música brasileira quanto Sergio Mendes. Com este álbum, ele não apenas conquistou o público ao redor do mundo, como também transformou a percepção internacional sobre a riqueza e a sofisticação do nosso repertório, abrindo caminho para gerações de artistas brasileiros. Seis décadas depois de seu lançamento, o disco permanece moderno, influente e inspirador, reafirmando a força de uma obra que atravessa o tempo sem perder sua relevância. É uma grande honra celebrar um álbum que ocupa um lugar definitivo na história da música brasileira e que ajudou a consolidar seu legado no cenário mundial.” – Paulo Lima, presidente da Universal Music Brasil.

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Repertório do álbum “Herb Alpert presents Sergio Mendes & Brasil 66”:

Lado 1:
1 – “Mais que Nada” (Jorge Ben)
2 – “One Note Samba” (Newton Ferreira de Mendonça / Newton Mendonça / Antonio Carlos Jobim)
3 – “The Joker” (Anthony Newley / Leslie Bricusse)
4 – “Going Out Of My Head” (Teddy Randazzo / Bobby Weinstein)
5 – “Tim Dom Dom” (Brito Clodoaldo / Luiz Joao Mello)

Lado 2:
1 – “Day Tripper” (John Lennon / Paul McCartney / Tommy Emmanuel)
2 – “Água de Beber” (Antonio Carlos Jobim / Vinícius de Moraes)
3 – “Slow Hot Wind” (Norman Gimbel / Henry Mancini)
4 – “O Pato” (Jayme da Sylva / Neuza Teixeira)
5 – “Berimbau” (Vinícius de Moraes / Baden Powell / Ray Gilbert)